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ENTREVISTA: NEGROMAR E A ENGENHARIA DE UM FUTURO SONORO
Um ano após o lançamento de
"RAP COM MPB", o projeto se revela menos como um simples álbum e mais
como um protótipo , uma prova de conceito de como memória,
território e tecnologia podem fundir-se em arte. NegroMar, que fez toda a
arquitetura por trás dessa obra, conversa com o Notícias Mundiais 24 Horas não
sobre o que o disco foi, mas sobre o que ele inaugura.
Da física dos beats ao design de capas, esta é uma entrevista sobre de uma
nova cena. Confira.
1. Notícias
Mundiais 24 Horas: NegroMar, lendo suas entrevistas e os documentos criativos
disponibilizados por sua equipe, é impressionante o nível de detalhe: desde a ideia
do clipe com estética de GTA até o "toque de uma arma sendo
recarregada" no beat de "Escrevivência". Isso parece menos um
processo de composição e mais uma "engenharia de som". Como você
traduz conceitos tão visuais e táteis (como um "livro armado" ou um
"poder da condução") em camadas específicas de arranjo e mixagem? O
que você e o Luizin do Beat ouviam que precisava ter essa
textura?
Pow,
primeiramente máximo respeito estar aqui dando entrevista pra um jornal tão
importante e relevante como o de vocês, satisfação máxima. Cara, sobre a
tradução os conceitos visuais e táteis do meu álbum, desde o início eu e Lz. Do
Beat queríamos que as pessoas tivessem uma experiência sonora com o álbum,
então eu me encarreguei de fazer letras profundas, o que não difícil, já que eu
passava no momento da criação de Rap com MPB, por momentos de profundidade. Lz
do Beat já sabia da minha ideia: eu queria uma parada minuciosamente feita,
detalhada, então o que ocorreu foi a fusão dessas duas coisas, e cá pra nós,
deu certo demais! No período de criação do álbum, escutamos muitas músicas
juntos, Luizin me apresentou muito, muito de um Hip Hop que eu ainda não
conhecia, e eu apliquei nele também muito das minhas sonoridades, foi uma troca
potente ali, de conhecermos nossas referências, e o resultado disso foi Rap com
MPB da forma como conhecemos hoje!
2. A capa final do álbum é uma
foto que parece sair de um álbum de família dos anos 90, cheia de subjetividade
e memória afetiva. Mas no seu processo criativo, você chegou a considerar
outras ideias visuais bem diferentes, como uma contra-capa mais impactante ou
até conceitos que chamassem mais atenção de imediato. Como foi esse balanço
entre escolher uma imagem que é um “arquivo do passado” e outras ideias que
poderiam funcionar como um “cartaz” para o presente? O que essa escolha diz
sobre como você quer que o disco seja descoberto?
- Nossa, que pergunta foda! Não
foi um processo fácil, mas desde o início eu já tinha uma certeza em mente:
fazer uma capa que se comunicasse com minha territorialidade e daquilo que o
álbum nasce, então decidimos fazer ela na praça do meu bairro, utilizando a
fotografia como um marcador histórico. Naquela praça, que é a principal do
bairro, já foi palco de muita tristeza, como mortes de jovens negros, palco
também de alegrias, de muitos momentos, então fazer a capa, ali, num local
central e de muita importância para o bairro, se mostra também como um
instrumento de ressignificação do ambiente e tudo que ocorrera nele, e por isso
que a capa de Rap com MPB se mostra potente: ela nasce com aquilo que foi no
passado, se mostra o que é no presente, e dialoga com o que virá no futuro!
3. Em "Bota, Joga!",
você canta "só no finin, só no finin". A palavra "finin" ou
"fininha" carrega um significado muito específico na cultura do funk,
como um subgênero. Curiosamente, a banda O Rappa tem até uma música chamada
"Fininho da Vida", que fala do caminho apertado da vida. Para você, o
que o "finin" representa como estilo musical dentro da sua
faixa? Como ele se conecta com essa ideia de "caminho apertado" e de
criar espaço para a alegria dentro dele?
O Rappa é
referência, mano. Minha irmã ouvia muito, e a música "Fininho da
Vida" deles fala justamente da vida pesada, do caminho apertado que a
gente vive.
Quando eu
canto "só no finin" em "Bota, Joga!", tô falando de um
subgênero do funk, o funk fininha. É um estilo musical que eu curtia e quis
trazer pro álbum como referência. A música é de baile, feita pra galera dançar
e curtir.
A conexão é
essa: se o Rappa canta o fininho da vida como a luta, meu finin é o baile que a
gente merece no meio dessa luta. É o direito de extravasar, Cantar pra
extravasar, de transformar a pressão em alegria, sem deixar de ser crítico. O
funk é isso: a celebração de quem vive no aperto todo dia.
4. No texto, você descreve
"MIM" como uma "cartilha" que você não tinha força para
seguir na época, e em seus documentos criativos, você cita o provérbio "Exu
matou um pássaro ontem com uma pedra que só jogou hoje". Agora, um ano
depois, quais pássaros do seu passado você sente que essa pedra (a
música) finalmente atingiu? A cura veio pelo tempo, pela música, ou pela
combinação dos dois?
- Mano, a
cura veio por todos os cantos e todos os lados, a música, o tempo, o tempo, né,
mano, ele é infalível com todas as pessoas, então eu acredito que que essa
pedra atingiu o ponto crucial dela: a cura e os diversos aprendizados durante
esta caminhada. E quando falo aprendizado, não quero romantizar a dor, mas sim
pontuar que as ocasiões difíceis da vida sempre serão escolas para aqueles que
nasceram para brilhar neste mundo. Então eu me sinto muito feliz em olhar este
projeto, esta música, e compreender que aquilo que porventura doía, não doí
mais, e desde sempre, tudo foi sobre potência, mesmo que durante um delicado
momento.
5. Você fala sobre distribuir QR
Codes das suas músicas nas entregas de delivery em BH. Isso é uma tática
de rede mesh, uma distribuição descentralizada, ponto a ponto. Parece a
lógica do funk: que nasce e se espalha pelo território, não pelos canais
oficiais. Você acha que o futuro da música independente passa por abandonar a
lógica das playlists e abraçar essas estratégias de
contrabando digital, criando sua própria infraestrutura?
- Não, eu acredito que a
publicização do seu trabalho passa pela sua condição, sobretudo econômica, de
fazê-lo rodar. Você tá falando de quando disse que distribuía QR codes da minha
música pra clientes no drive thru de uma pizzaria que trabalhei em BH, certo?
Ali era minha possibilidade, mano? Só fiz o que tava no meu alcance, tá ligado?
Passavam centenas de pessoas lá, diariamente, isso me proporcionou ter trocas
muito legais com as pessoas, principalmente as que se identificavam, mas isso,
obviamente, não faria meu trabalho ter um alcance global, e pra falar a
verdade, nunca foi essa a intenção. É óbvio que todo artista quer ser ouvido,
valorizado, ter milhões de visualizações, fazer dinheiro, mas, antes de tudo,
sempre tive a concepção de meu trabalho não era sobre isso, especificamente,
era sobre organicidade, intimidade, subjetividade acima daquilo que é material,
então isso me deu confiança pra fazer daquela forma. Mas acredito que é
fundamental um trabalho amplo, sobretudo no meio digital, pra chegar até as
pessoas, mas ainda tudo é muito desigual nesse ramo artístico, porque nem todo
mundo tem dinheiro pra fazer a música rodar.
6. "S.A.L.V.Y" é um
mapeamento sonoro do Vale do Aço, nomeando dezenas de comunidades. Além da
homenagem, isso parece um ato de geolocalização afetiva. Se um
ouvinte de outro país acessar essa faixa, que coordenadas emocionais do
território você espera que ele capte? O que significa, em 2024, cartografar a
periferia em um álbum de música?
- Quebrada é quebrada em
qualquer lugar, mano! Aqui em BH uma vez eu coloquei essa faixa pra tocar na
adega do Padrin, meu mano FBC, numa comunidade chamada Cabana do Pai Tomás. O
mano que tava lá comigo ficou de cara quando ouviu esse som, na cabeça dele, eu
tava falando das quebradas de BH, inclusive umas que tão em guerra com a outra,
então você entende a amplitude desse som? Ele foi feito falando das quebradas
do Vale do Aço, mas se comunica com o geral, com o amplo, então quem é de
periferia, ou já teve essas vivências, capta, entende, porque a faixa dialoga
intrinsecamente com esse povo. Mano, cartografar a periferia numa faixa musical
significa contar o que acontece no seu tempo, é um marcador histórico muito
importante que, novamente, se comunica com o passado, com o presente e com o
futuro.
7. Você menciona a ideia de uma
coreografia para "RAP COM MPB" com passinhos de Miami Bass, pensando
com seu coreógrafo Brenner. A dança, então, não é um extra, mas parte do design
do projeto. Como a corporeidade e a ideia de que a música
deve ser dançada moldaram a composição das faixas? O álbum foi pensado para o
fone de ouvido ou para o corpo em movimento?
- Boa, o
álbum foi pensado em movimento, porque somos todas do corre, então esse lance
de fazer um som popeado, animado, dançante, que tivesse essa pegada do Hip Hop,
foi muito importante pra mim, porque une e se comunica também com os 05
elementos do Hip Hop: A DJ, a MC, o Graffiti, o Break dance e o conhecimento.
8. "RAP COM MPB"
parece um protótipo — um modelo inicial de um som que é, ao mesmo tempo, raiz e
invenção. Você já afirmou publicamente sua identidade não-binária, e o álbum
mesmo trabalha com essa fluidez, fundindo gêneros e atravessando categorias.
Olhando pra frente, como você vê esse projeto se desdobrando em algo além da
música? Seja um filme, um jogo, uma série, ou uma plataforma. Em que novos
formatos essa semente, que é musical, territorial e de gênero, pode germinar e
expandir a linguagem que você começou aqui?
Tenho total confiança de que
esse trabalho veio pra ficar, mano, pra marcar presença e criar raiz no tempo.
Ele já tá assumindo um protagonismo próprio aqui no Vale do Aço, construindo
uma memória afetiva que é daqui, das nossas ruas. E como uma pessoa
não-binárie, eu sinto que essa sonoridade também tá dizendo algo importante:
que a cena, o Rap, o Hip Hop, também é nosso lugar. Nosso lugar é onde a gente
pisa, onde a gente cria, não é mesmo?
E pensando como um produto do
futuro, o Rap com MPB vai render muito ainda. Pode ser um menor que escuta e se
inspira, um trabalho escolar que usa as letras, uma pesquisa na faculdade...
Qualquer coisa, mano. Eu tenho fé de que ele vai expandir, ocupar novos espaços!
9. Por fim, uma pergunta sobre o
silêncio. Em um trabalho tão denso em referências, samples e palavras, onde
está o silêncio mais significativo do álbum? Que coisa você optou por não dizer, não samplear,
ou não preencher, para que o ouvido do público completasse com
o que precisava?
Eu diria que o silêncio mais
significativo do álbum são meus gritos nas letras das músicas, porque quem me
conhece bem, sabe que ali eu estava gritando, gritando tão alto que se transformou em música, então não tem nada
que eu não tenha dito, muito pelo contrário, eu falei tudo que tinha pra falar,
inclusive com destinatário final. Papo reto, meu mano!
PARA FINALIZAR
"RAP COM MPB" é um manual
de instruções para construir futuro a partir das ruínas do presente. NegroMar
opera não apenas como artista, mas com uma engenharia de afeto, sendo cartógrafo
de resistência e arquiteto de sons. Um ano depois, fica concreto: o álbum não
terminou. O projeto está disponível em todas as plataformas.



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